Depois de mais de 10 anos trabalhando com conteúdo para as redes sociais, me vi flertando cada vez mais com a ideia de excluir o perfil no Instagram. Parece uma ideia tão sedutora, mas ao mesmo tempo traz uma sensação de vazio. Como alguém que mantém trabalho, amizades e até diversão através das redes sociais consegue se desvincular sem fazer desmoronar algo que foi construído tijolo por tijolo, da forma mais difícil possível, quando tudo ainda era mato?
Faz anos que a internet deixou de ser legal. Ao lembrar da adolescência, percebo que “entrar” na internet era como atravessar um portal mágico, onde eu poderia ter acesso a informações interessantíssimas em blogs e consumir conteúdos únicos. Era uma distância saudável, pois a linha que separava o online do offline existia. Cada um tinha o seu espaço. As coisas pareciam concretas.
Hoje, parece tudo plástico. É como se as redes sociais fossem um rolo compressor, tanto para quem consome quanto para quem cria conteúdo. Não sei mais se as minhas ideias são minhas mesmo, ou fruto de inúmeros conteúdos que passaram pelo feed dizendo a mesma coisa. Tá todo mundo igual, falando igual, e o desespero para se destacar num espaço que parece minúsculo faz com que os conteúdos percam a qualidade de forma violenta.
De repente, acessar a internet não parece mais tão legal. Na verdade, sendo criadora de conteúdo, é como se não pudesse ter as minhas próprias ideias e fazer as coisas do meu jeito, pois todo mundo já concordou em ter uma personalidade específica e, se eu tentar remar contra a maré, o algoritmo vai me esmagar e me empurrar para o buraco da invisibilidade de novo. É cruel.
Sinto que estou em um relacionamento abusivo com o Instagram, como se eu estivesse insistindo em algo que me faz mal, mas não consigo me imaginar sem. Eu genuinamente gosto de criar conteúdo, gosto de falar com as pessoas, gosto de compartilhar ideias, mas deixou de ser legal como antes. Naquela época, tava tudo bem ter um nicho, mas ele não era um limitador do que você podia ou não falar. Era tão legal compartilhar algo novo que você estava descobrindo e encontrar pessoas que viviam as mesmas experiências. Agora, falar sobre algo novo é ser punida pelo algoritmo e jogada num limbo que diz que você não é estratégica o suficiente. Parece que não tem espaço. Não cabe.
Toda vez que penso no meu rumo na internet sinto vontade de desistir de tudo o que criei ao longo de mais de 10 anos. Só sumir, desconectar, voltar a minha atenção apenas para a minha área de formação ou até mudar de área. Mas, se eu sumir, o que faço com todas as ideias que rondam a minha cabeça? Pra quem eu falo quando quiser contar sobre um livro incrível que li ou quando quiser conversar sobre um grupo musical que me deixou obcecada como se eu fosse adolescente de novo?
Acho que é nesse limbo que se encontram as pessoas que viveram a internet nos anos 2000 e hoje têm uma relação abusiva com as redes sociais. Não é mais o que era antes, mas a gente queria que fosse e, por isso, não consegue desapegar.




