Mulheres negras não deveriam morrer exaustas
Foi tão difícil lidar com as ondinhas que esse livro fez formar no meu cérebro, que eu precisei voltar a fazer algo que eu não fazia há muitos anos: escrever.
A escrita sempre foi o meu refúgio. A minha âncora no mundo. Escolhi ser jornalista por causa disso, então parece loucura estar há anos sem escrever, mas foi a vida dando o seu jeito de me colocar num moedor.
Os últimos anos foram tipo uma maratona, só que eu não sabia onde era a linha de chegada. Essa corrida foi cheia de pressa, muitos tropeços e quase nenhum tempo para parar, respirar e descansar. Senti como se meus pulmões fossem pegar fogo de tanto correr, mas quando parei para entender pra onde eu estava indo, eu simplesmente não consegui me lembrar.
Eu estou exausta. É por isso que eu não me lembro.
A exaustão não me permite apreciar a vida do jeito que ela é, e não me deixa escolher com calma os rumos que quero seguir. De repente, a linha de chegada da minha enfadonha corrida não fazia mais sentido e, percebendo isso no meio do caminho, me vi perdida sem saber como mudar de direção.
Era como se o excesso de tudo desse um tilt nos meus pensamentos e a única forma de consertá-los fosse com a calma. Foi um ano de calma. Um ano para decidir qual rumo eu queria tomar e como sobreviver priorizando a calma ao invés da pressa. Eu não quero mais participar dessa corrida insana. Não quero competir com ninguém e muito menos me destacar. Percebi que existe uma doçura em ser gente comum. Me contento em ser ordinária, pois o extraordinário é cansativo.
Descobri a doçura nas quartas-feiras, quando fecho os olhos diante das infinitas tarefas e me permito abrir um livro de colorir e passar algumas horas sem me preocupar com nada nem ninguém, não entregando nada de útil ao mundo, mas me devolvendo o apreço do tempo. O que há de mais caro nos tempos modernos.
E com isto, concluo que, se hoje o tempo é caro, então meu único anseio é ser rica. Só assim saberei que não sou mais uma mulher exausta.



